Ao lugar de Estôze

Guisande, a freguesia
Nas fraldas do Monte Mó
Contada como por magia
Nas história de minha avó.

Por ser natural de lá,
Porque Deus a lá pôs,
Falava com enlevo e afã
Do seu lugar de Estôze.

Dizia: - Deus pôs e dispôs,
E desta sua disposição,
Criou o lugar de Estôze,
Aldeia de meu coração.

De Guisande, concerteza,
Como a Lama ou a Barrosa,
Aconchegado, que beleza,
Como na jarra uma rosa.

Cada lugar é uma pérola,
Presa ao mais belo colar.
Mas Estôze tem auréola
De Santinho em seu altar.

É um dentre catorze
Lugares da freguesia.
Fosse  Estôz ou Estôze,
Tão pouco importaria.

O Júlio e o Julião

 Olhem, lá vai o Julião, feliz da vida porque a vida lhe tem sorrido.
Duplamente reformado, de lá, do Luxemburgo, e de cá, da função pública, de um cargo que, dizem, porventura as más línguas, chulou até ao tutano, goza agora as delícias da velhice, entretido entre netos, criação de coelhos e cultivo de nabos, nabiças e outras hortaliças na sua horta de estimação.

Nascido e criado na freguesia de Carregães, de origens pobretanas, filho de pai incógnito e da Micas da Estrela, deu à costa na aldeia de Pateiras num dia de festa à Senhora do Amparo, e de um namorico morno, insípido mas fecundo, acabou, qual raposa, a assaltar o galinheiro da abastada e rendida casa dos Figueiras, casando com um dos seus "pitos ricos". Cometeu, porém, a imprudência de se ausentar do galinheiro, ainda morno da segunda galadura, emigrando por uma boa dúzia de anos, pelo que desde cedo tem marrado que baste à custa desta sua "galinha chocadeira", mas isso são outras histórias, outras cornadas.

Apesar desta sua boa posição, com chorudas reformas da estranja e do Estado, o Julião viveu quase sempre ao lado da vida, vivências e convivências da aldeia, fugindo como do diabo da Cruz a tudo o que cheirasse a cargos, canseiras e responsabilidades. Confraria ou comissão de obras ou de festas que lhe batesse à porta, levava a esmola, sempre de tostões, mas não sem ouvir o responso, pai-nosso e sermão. Estava sempre na linha da frente do escárnio e maldizer, do bota-abaixo, sempre no seu ar de pimpão, vestido da mais elevada moralidade. Em suma, era um figurão de Pateiras, mas não passava disso mesmo, um figurão vazio, cheio de nada. Um burro carregado de libras, como o considerava muito do povo da terra.

Não surpreendeu, pois, que um dias destes ao balcão da tasca do Felisberto, já com uns copos de Malaquias a transbordar, o Júlio tenha tomado a voz do grupo, em que por um destes acasos de conversas de café veio à baila a importância do Julião para a terra, para, com a voz já avinhada, sentenciar: - O Julião é mas é um grande filho-da-puta! E corno, ainda por cima! Faz cá tanta falta como uma viola num enterro!

Ficaram todos de boca aberta, mudos e calados, num silêncio de arrebatamento e concordância por tão acertada descrição. O Julião podia ser um figurão, mas o Júlio, esse sim, era um artista que com uma paleta de coloridos palavrões, dissolvidos a vinho verde, pintava qual mestre do mais puro realismo os juliões da aldeia. Para além de verde ou maduro, branco ou tinto, apreciava e comia galinha de capoeiras sem galo, como a do Julião,  ao que dizem, à fartazana, que nem canja  dada a mulher parida.

- A. Almeida

Feliz Natal!

Pequena, minha aldeia,
Mesmo que fosses feia,
Mesmo assim a mais bonita.
 
Que Deus bem te proteja,
Bendito e Louvado seja
Por graça tão infinita.

 
Humilde mas honrada,
Com gente tão dedicada
De coração tão grande.
 
Nesta noite de consoada,
Com mesa abençoada,
Feliz Natal, Guisande!

Natal

Não, amor.
O tempo agora não é de amoras,
Mas de amores,
De sabores até.


À lareira,
No crepitar das labaredas,
Num aconchego que aquece,
O frio desvanece.

 
Sim, amor.
Já ouço as vozes, os risos,
Vejo os sorrisos,
A mesa está farta.
Olha as rabanadas,
As nozes, a aletria.
Que alegria....
A mesa posta,
Na travessa a posta,
Nosso deleite,
Regadinha de azeite...
Ah, como isto não há igual.
E sabes porquê, amor?
Sim, porque é Natal!

Que raio de Maio


 Que raio de Maio este,
que não aquece
e até parece
um marçagão.


Um desmaio de Maio
que desvanece,
até desfalece,
à porta do Verão.


Os ninhos molhados,
pássaros calados,
só chuva,
a engordar a uva,
a molhar a toca
da esguia minhoca.


Não há aromas de rosas,
de goivos e jasmim.
Que raio de Maio,
não te quero assim!

Maio

Olha, amor,
Já é Maio,
Da Primavera em festa,
embriagada de aromas.

Manhãs frescas
De orvalhos límpidos,
Cintilantes,
Tardes mornas,
doces, de promessas
aconchegantes.

Já floriram as laranjeiras
E os goivos lilás
perfumam o cantinho do jardim.

Olha, amor,
Já é Maio,
Da Primavera das flores,
Das sinfonias de chilreios,
Do amor de ramo em ramo,
dos ninhos aveludados
das flores nos caminhos,
como que à espera
de procissões.

Olha, amor,
Já é Maio
e não tardam os beijos de amoras,
lábios de cerejas,
abraços de jasmim
e êxtases de rosas, enfim.

Borboleta

Olha! Uma borboleta!
Pela certa, procura flor
onde pousar,
onde comer.
Olha! Uma borboleta!
Amarela e preta,
sempre a voar
a planar,
a viver.
Olha! A borboleta!
Lá se foi,
voando
ao namoro
de outra flor
Ficou a flor deserta
em dor que dói,
esperando,
em seu choro,
outro amor.


A. Almeida – 21/07/2015