Contos Pequenos

O pobre geme

 

 

O pobre geme
Porque o rico o espreme,
Porque o rico é verme.

O pobre teme
Que o rico desgoverne
Um barco sem leme,
Sem ninguém que reme.

Mais que gemer,
Mais que temer,


O pobre suspira
Uma soluçada mágua,
Porque neste mar,
Se acaso afundar,
Ninguém o tira
Do leito de água.
Seu destino: afogar.

Contos Pequenos

Tradição

 

Algumas palavras têm o sentido que lhes quisermos dar ou o que melhor nos convém em determinada situação. Uma delas é a palavra tradição e o que ela possa significar.

Num sentido lato, qualquer dicionário dirá que tradição significa um costume ou um hábito sustentado pela prática histórica e regular, transmitido de geração em geração como uma herança..

Logo, uma tradição pode ser boa ou má, é certo, mas sendo que decorre de uma prática continuada e respeitada, normalmente associa-se o conceito a uma perspectiva positiva.

A tradição poderá, pois, significar no sentido mais popular, a preservação de práticas e costumes que de algum modo valorizam um indivíduo, uma família, uma comunidade ou sociedade. Pode ser própria de um local específico, de uma região ou de um país. Pode estar associada a uma prática cultural, religiosa ou outra.

Por conseguinte, no caso de uma povo ou uma comunidade, a preservação de uma tradição cuja essência não choque com os valores fundamentais do respeito e dignidade das coisas, dos lugares e das pessoas, será um sinal de riqueza e respeito por algo que ao longo dos tempos e gerações fomos herdando dos nossos antepassados.

Todavia, há quem por conveniência teime em associar o conceito de tradição com conservadorismo e quase sempre num sentido negativo como se este em si mesmo seja necessariamente mau ou prejudicial. Ora, nos tempos que correm, ritmados por uma forte perda de valores e desrespeito por tudo e todos, onde o “eu” se sobrepõe ao “nós” e a libertinagem à liberdade, alguma dose de conservadorismo aplicada como temperança, disciplina e prudência, não seria descabida.

Cheira, pois, a discurso mal amanhado e parcial, o que insiste numa desvalorização de tudo o que se defenda e invoque como tradição, o que nem surpreende, já que regra geral esta análise depreciativa vem de quem está totalmente fora do contexto de uma determinada tradição, logo incapaz de sentir e perceber o seu valor endogénico.

Pode-se ser progressista sem o menosprezo das tradições. Dito de outra forma, bom progressista é aquele que consegue conciliar a defesa e preservação das tradições com os tempos actuais e mudanças. Logo, a tradição não tem que chocar com o progressismo ou vice-versa. De resto, felizmente, são muitos os casos onde as tradições têm sido valorizadas precisamente por em simultâneo haver uma visão progressista.

Voltando ao princípio, as palavras têm sempre o sentido que lhes quisermos dar, mas não é de bom-tom dar-lhes deliberadamente um sentido com o propósito de lhe retirar a importância de outro, desde logo porque assim não se respeita quem o defende.


Américo Almeida

Contos Pequenos

Doce berço

 

Quiz Deus que a beleza,
Fosse também simplicidade;
Quiz ainda que a grandeza
Fosse rosto da humildade.

A freguesia de Guisande,
Porque simples se acena
É pequena sendo grande
E grande sendo pequena.

Guisande, belo ninho, doce lar,
Onde morrerei, nasci e cresço,
Guisande, terna mãe a embalar
O seu menino em doce berço.

Ó minha aldeia pequenina,
Torrão verde e fecundo,
Que Deus me deu por sina,
Ter raízes bem no fundo.

Ouço o vento e ele é voz,
Sussurrando entre pinhais,
Memórias de meus avós,
Lembranças de outros mais.

Gente amiga, já partida,
Num adeus, num até breve,
As lágrimas da despedida
Mitigam a sede a quem as bebe.

Guisande, jardim que se abre,
A meus cuidados a meu carinho.
Qual ramo onde a pequena ave
Escolhe p´ra poiso de seu ninho.

Guisande de outras memórias
Berço e campa de boa gente.
Simples mas gratas as glórias,
Do passado feito presente.

 


Américo Almeida
Contos Pequenos

A praga

 

Gandariz, pequena aldeia deste nosso Portugal, um coreto maneirinho onde poucos músicos interpretavam em compasso lento a marcha da vida de um quotidiano simples e humilde. A freguesia não era grande em montes e vales e em pouco mais de uma manhã era corrida de lés a lés, desde a encosta da serra da Guieira até ao vale por onde serpenteava pachorrenta a ribeira do Lobo. Também não era grande o número das almas que nela penavam, porque aos poucos os mais novos rumaram à Suíça ou mesmo a França e a Espanha. Mesmo assim, ainda havia gente para, lá por Agosto, inundar o arraial da festa de Nossa Senhora da Guia, mesmo que os vizinhos das aldeias de Germondim, Lourães e Vidigosa ajudassem a compor o ramalhete, para além de que as férias permitiam que alguns filhos da terra viessem à mesa farta da festividade como que no encalço de um aroma de carne assada aconchegada na assadeira em cama de batatas às metades e ramos de tomilho e louro.

A aldeia era assim uma espécie de presépio napolitano montado na encosta mais risonha da Guieira, onde cada habitante desempenhava o seu papel e ocupava o seu lugar, fosse no campo, no amanho da terra ao ritmo das sementeiras e colheitas, fosse no monte pejado de pinheiro bravo com salpicos de carvalhos e castanheiros.
Vivia Gandariz na sua paz molengona, sem grandes larguezas de meios, é certo, mas sem desmazelos ou sobressaltos

Sobressaltou-se, porém, quando o Adriano Azevedo, com 20 anos e picos de Suíça decidiu regressar de vez. Pegou nas filhas, na Rosa, no be-éme, e depressa reentrou na “maison”, que erguera à custa de francos no melhor sítio do souto que tinha ao cimo do lugar do Riengo.
Nunca o disse a ninguém, que era de poucas palavras, mas quem o julgava conhecer melhor dizia que vinha bem calçado e que tinha a juros na agência bancária de Lourães uma pipa de massa; Cinquenta mil contos, alvitravam os mais modestos. - Mais do que isso! P´ra cima de cem mil contos! Arriscavam os mais informados, alguns dos quais que com ele se cruzavam aos fins-de-semana pelas ruas ou parques de La Chaux-de-Fonds, Neuchatel , Sernéres ou Colombier.
Alguns, como o Zé de Falgar, seu companheiro da primária e amigo das farras de solteiro, dizia que sim senhor, que tinha muito dinheiro porque o soubera ganhar com trabalho e esperteza. Outros mais maldizentes, como o Zeferino da Micas, que não o podia ver desde que num bailarico de S. Martinho, dos seus braços lhe arrancara para sempre  a Rosa para uma dança mais íntima na sombra espessa da carvalha velha, deixando-o plantado no meio da eira com cara de lorpa, dizia que talvez tivesse umas massas mas à custa de sacrifício desmedido, trabalhando sábados, domingos e feriados  e a tirá-lo ao corpo e à boca das filhotas, fazendo refeições à base de caldo aquecido, atum e sardinhas enlatadas, esgueirando-se a Portugal em fugidas de longe a longe. Vê-lo pela Casa Portuguesa ou noutros convívios dos patrícios era uma lotaria.

Fosse como fosse, depressa o Adriano estava granjeado como um dos mais ricos e importantes senhores de Gandariz e, verdade se diga, embora sem fazer disso alarde, tinha-se nessa boa conta. Vestia-se bem, tinha bons carros, casas de férias na beira-mar  e a Rosa, que já não sendo a mesma de há trinta anos atrás, andava sempre nos trinques, viçosa como um ramo de flores em jarra a que nunca faltava água fresca.

Talvez por isso, foi sem surpresa que passadas poucas semanas de ter sido dado como vindo de vez da Suiça, o Adriano soube pela mulher, que no final da missa tinha sido alumiado como Juiz da Festa do Senhor. Coisa de pouca monta mas de reconhecimento.
O Adriano rogou uma praga silenciosa ao saber da novidade, mas a contragosto lá assumiu o papel que a pouco mais se resumiu do que ter perdido uma manhã de Domingo a bater a cada porta da aldeia, a pedir quase por favor a esmola da tradição, e depois no dia da missa solene estar ao lado do padre indumentado com uma larga opa escarlate, que pelo menos lhe disfarçava o rubor do incómodo do papel.
Jurou que nunca mais. Que não precisava daquilo para nada, andar a pedir e a ouvir sermões do lado de dentro das portas fronhas ou a aventurar-se em quinteiros húmidos, recebido por cães a latir espuma pelas bentas para, afinal, receber uns míseros trocados para depois o lorpa do Saraiva da Comissão da Fábrica o arrebanhar no saco de veludo púrpura.

Ninguém, para além da Rosa e das filhotas lhe ouviu o praguejar pelo que passados dois meses estava a ser eleito para juiz da festa da Senhora da Guia. A Rosa ainda o tentou convencer de que era um papel de prestígio, que qualquer gandarizense se orgulharia, mas a verdade é que poucos dias depois da nomeação, não teve outro remédio senão ir ter com o padre Albano, pesarosa a desfiar um rosário de desculpas, que o marido pela altura da festa contava voltar à Suiça para resolver assuntos que ficaram pendentes e que, apesar de desgostoso, seria melhor arranjar substituto. Que talvez para o ano seguinte ou lá mais para a frente. Que mais a mais, ainda tinha feito a festa do Senhor há pouco tempo e que não poderiam ser sempre os mesmos.
O padre Albano, bonacheirão, enrodilhado nesta ladainha e nos olhos faiscantes da Rosa, pareceu compreender as desculpas e não querendo ver desviada tão importante ovelha do seu rebanho e pensando em juros futuros, anuiu e prometeu arranjar substituto. Que não fosse por isso.

A freguesia soube desta recusa e pareceu acolher compreensiva a justificação do Sr. Adriano, mas outros nem por isso, como o Zeferino que aproveitou as conversas na tasca do Elias para elevar tão baixa afronta. – É um merdas! Um cheio-de-nove-horas! Chega aqui armado em rico, cheio de pastel e não é capaz de assumir uma eleição que só lhe daria prestígio. Bem feito para quem o nomeou, pois fiaram-se na sua importância e agora tiveram que arranjar um cireneu qualquer.


Influência negativa do Zeferino ou não, e em pouco tempo percebeu-se que havia vários zeferinos na aldeia, o Adriano começou a ser mal visto  e, verdade se diga, também fez por isso pois era alma que não tinha horas para as missas nem convivia com a malta e minutos passados nas tascas eram escassos, quase sempre jogando às copas em que raramente mostrava bom ganhar ou melhor perder, deixando assim um clima de antipatia e mesmo um rancor que aos poucos, num lento germinar, foi alastrando por Gandariz.

Nunca mais foi eleito ou nomeado para nada, mesmo que por diversas vezes ainda tivesse sido sondado, nomeadamente para Mordomo-da-Cera, que lhe daria a responsabilidade de Juiz da Cruz. – Que nem pensassem nisso! Lá mandava o recado pela Rosa. Por diversas vezes foi abordado para encabeçar a lista às autárquicas ou à presidência do Desportivo Gandarizense. A todos respondeu com indiferença e para qualquer coisa ou função que fosse apontado, a aldeia habituou-se  à resposta negativa da boca do Adriano ou em recado pela Rosa.
Não tardou assim que o Adriano Azevedo caísse num certo desprezo geral e qualquer sorriso ou deferência que recolhia era em situação de negócios porque o dinheiro não distinguia amizades ou simpatias, como dizia o Albano, empreiteiro que lhe ampliou a “maison” e vedou a quinta.

O Adriano, neste azedume constante, no alto da sua importância incompatível com questões menores, fazia por não se relacionar com a aldeia e esta, já habituada, continuou a ruminar na sua pacatez, ignorando que alguma vez ali existisse um Adriano, o qual, pelo Zeferino, foi baptizado de Adriano Azedo, num trocadilho irónico ao apelido e travo ácido da sua cagança.

A verdade é que ao fim de alguns anos, rompida a capa da altivez, a par dos cabelos grisalhos e do amolecimento por alguns problemas de saúde, incluindo um enfarte de que escapou mas que o deslavou de cores, o Adriano, aos poucos, começou a chegar-se à aldeia como galinha ao poleiro pelo lusco-fusco, a marcar presença na tasca, a aparecer na missa, a marcar lugar nos passeios da paróquia, mas nunca mais foi a mesma coisa e tanto para o Zeferino como para os habitantes da aldeia, ele continuou a ser o Adriano Azedo, um “burro carregado de libras”, um “grosseirão” que não levantava uma palheira do chão a favor da freguesia.

Se por parte do Zeferino, se compreendiam os seus constantes remoques, os seus velhos ódios, ancorados na desfaçatez do primeiro amor roubado, já quanto à aldeia não era mais do que um julgamento salomónico de quem sempre encarou as coisas com naturalidade, distinguindo de forma frontal a pertinência de se matar o bicho para morrer a peçonha. Não seria, pois, com estes paninhos quentes e tardios, esta amostra de arrependimento com “água no bico” que tornariam o Adriano no senhor importante e considerado, quando anos antes regressara de vez da Suiça.

O Adriano, à custa de tantos nãos e de tanto azedume semeado e colhido, tornou-se num homem sozinho e nem as próprias filhotas, que fugiram do peso do seu jugo logo que se viram formadas e arrumadas com doutores lá para os lados do Porto, faziam por o sentir acarinhado. A Rosa, essa, pelo respeito ou medo de tantos anos de subjugação com rédea curta, mas agora mais por compaixão samaritana, era a sua única companhia.

Divagava dias inteiros, sozinho pelas encostas do Souto Grande, onde lhe assaltava à memória os alegres tempos de rapaz pegado à soga da parelha de bois de seu pai e a desforra nos bailaricos como um quebra e rouba corações, e agora perguntava a si próprio, porque é que chegado ali sentia-se a mais triste das criaturas de Gandariz? De que lhe servia os milhares que toda a aldeia, com razão, pensava que tinha, quando já as filhas o evitavam e mesmo o Zé do Falgar, seu companheiro e velho amigo das farras, lhe voltava as costas com indiferença, recusando um copo de maduro a transbordar oferecido ao balcão da tasca? Quando já ninguém o aceitava à roda de uma mesa para jogar as copas, a sueca ou o dominó?

Mergulhado nesta amargura, neste turbilhão de lembranças e memórias de outros tempos, numa interrogação doentia dos quês e porquês, num julgamento constante do ter e haver, o Adriano continuou a caminhar já sem rumo pelo caminho estreito da encosta abrupta da Guieira, e os pratos da balança da sua consciência oscilavam num frenético sobe e desce que lhe confundia as ideias, a alma e o coração e todo o corpo num frémito de lágrimas jorradas gordas e quentes. Neste torpor e arrebatamento que o dilaceravam, e já a coberto da negrura gélida da tarde que caía apressada como todas as tardes de Novembro, o Adriano descia a encosta, tropeço, não vendo já onde punha o pé que resvalava no musgo húmido. Quando a Rosa, aflita a altas horas da noite por ele não ter aparecido nem respondido ao telemóvel, bem tentou pôr a aldeia em alvoroço à sua procura, mas esta continuou no aconchego da lareira ou do morno da cama numa indiferença de doer. Apenas com as buscas organizadas da autoridade, dos bombeiros e da Guarda, passados dois dias, já pálido e inflamado de morte, com os olhos abertos vidrados de pavor, foi encontrado afogado, num leito de lodo frio da presa da mina do Salgueiral.


Cumpria-se assim o seu destino ou mesmo a praga do Zeferino rogada naquela distante noite de S. Martinho, e que tantas vezes repetiu: - Hás-de morrer rico mas como um cão abandonado!

 


Américo Almeida

Contos Pequenos

O Hipólito

 

O Hipólito, Silva de sua mãe e Cabral de seu pai, é uma das figuras mais típicas da freguesia de Garranchos. Desde pequenito que dava para ver que naquela bola de gente havia uma mistura de força, garra e ruindade, mas também de muita alegria. Ainda na escola, onde se arrastou pesadamente de ano em ano, da qual se libertou, já marmanjo, de uma quarta classe paga a galos caseiros, ele era um poço de problemas, mas daqueles poços sem fundo e mesmo que mal soubesse contar os dedos de uma mão, era com ela fechada, ao murro, ou aberta, à lapada, que punha a tropa da turma em sentido. Mas fazia-o sempre com um misto de alegria e brincadeira que os laparotos dos colegas, quando sentiam o peso dessa mão rechonchuda, nem sabiam se deviam chorar se rir. Apesar desse mau feito, o Polito, como era chamado, sabia também ser generoso e não raras vezes dividia pelos colegas a pobreza da côdea de pão que a mãe lhe enfiava no bolso cardido à hora de rumar à escola do Outeiro.

Diplomado com a quarta classe, no mesmo dia em que à noite os examinadores se deliciavam com uma canja fumegante de galo de pescoço esfolado, o Hipólito já tinha a guia de marcha para no dia seguinte apresentar-se como moço ao tio Fernando, trolha de arte e profissão. Assim, desde os primeiros dias de uma dureza extrema, a traçar massa e a acartar a pedra de afiar a colher, a guindar pesados baldes à força de braços, com as mãos endurecidas e gretadas pelo cimento, o pobre Hipólito penou durante cinco longos anos ao lado do tio para no final de cada quinzena apresentar à pobre mãe pouco mais que duas notas de cem.

Logo feitos os dezoito anos, que festejou com os amigos na tasca do Azevedo, numa súcia de queijo e amendoins, regada com uma receita generosa e açucarada, ainda mal curada a carraspana, o Hipólito afrontou a mãe e o tio, decidido a lançar-se por conta própria na arte que aprendera. Jurara, porém, que os baldes da massa seriam outros a servi-lo. Dito e feito, e em pouco tempo o Hipólito  tinha já há sua conta quatro gandulas a quem a quarta classe tardara. Não lhe faltava trabalho, tanto em Garranchos como nas redondezas e desde que fosse para chapar massa, assentar telhas ou caiar, o mestre Cabral, como gostava que o tratassem, era garantia de serviço sério e bem feito. Fazia questão que assim fosse e as massas que lançasse à parede ou metesse numas sapatas ou num muro em ciclópico, tinham que respeitar as doses certas, fosse de dois de areia e um de cimento, ou dois de areia, um de saibro e um de cimento. Não poupava o cimento nem que ficasse com prejuízo. Nem usava varas de eucalipto verde a fazer de verguinhas como se dizia do concorrente Dino da Amélia.

Neste corridinho, o mestre Cabral foi dançando ligeiro e, alargada a equipa, em breve já se multiplicava  nas empreitadas. Depressa cresceu, na profissão e no respeito da clientela, porque quanto a corpo, verdade se diga, o aumento foi mais na largura e, pela idade da tropa, da qual se safou pelos conhecimentos do Zé Sem Perna, um prestigiado livrador da vizinha freguesia de Justes, o qual, por uma granada que o devolveu ao Hospital Militar, depressa, à custa de prendas a todo o pessoal médico, enfermeiro e administrativo, acumulou influências capazes de livrar o mais saudável e robusto rapazola apresentado na inspecção, o Hipólito pesava já uns noventa quilos, bem aquilatados na balança onde pelo Entrudo confirmava o palpite lançado às arrobas dos porcos caseiros.

O Hipólito, o mestre Cabral, rechonchudo como um lapão, com a sua cara alegre de faces encarnadas, retocado por um bigodinho à Clark Gable, lá conseguiu miscar na Odete, uma moçoila prazenteira, rodinha vinte-e-seis, talhada à sua medida, arrancando-a à ninhada de treze irmãos da família dos Laranjeiras. O Padre João, depois de ninguém levantar objecções na plateia convidada que compunha a igreja, lá os uniu em nome de Deus. Já lá vão trinta anos, pois que as Bodas de Prata fizeram-se há cinco, no dia 8 de Agosto, logo a seguir à festa da Senhora do Amparo. Para mal dos seus pecados, mesmo tendo sido sempre um casal exemplar, daqueles que o Padre João gostava de acolher debaixo da sua asa de galinha choca, no seu grupo de Casais de Santa Ana e S. Joaquim, a verdade é que nunca tiveram filhos e assim a sua vida nunca chegou a netos.

O Hipólito, entretanto há muito afastado das lides de mestre, por entender que não valia a pena trabalhar para filhos que a Odete não lhe deu - abomina pensar que os não soube ou não pôde fazer - o Hipólito vive agora num misto de alegria ou tristeza mal disfarçada e vai-se entretendo com a patroa a cultivar umas leiras que rematou na partilha à custa de tornas. Está já na reforma. Continua com a mesma baixa altura, que os sacos de cinquenta quilos de cimento ajudaram a achatar em tempos de moço, ainda rechonchudo mas já de pele menos rosada e com as rugas sulcadas pelo tempo e pelas agruras da vida. As mãos ainda cheiram a cimento e à enxada, passa o tempo a cuspi-las. Mas, honra lhe seja feita, é um alegre ruinzito e sempre que entre na tasca, o seu velho bigodito, agora já caiado, ainda arrebita com o sorriso e se com ele alguém discute ou o contraria no seu doentio benfiquismo, temos homem para velhas lutas, daquelas que em novo reboliçava a tasca do Azevedo.

Mas, já não é a mesma coisa: Tem a garra e a ruindade do tempo da primária, tem viva lembrança das lapadas com que acariciava as ventas largas do Mandruca, que apesar do cabedal ficava com elas todas, mas já lhe falta as forças e principalmente a verdadeira alegria, aquele que se tem quando se é novo. Tomada a cevada, regressa, pois, a casa, cabisbaixo como um cão com o rabo entre as pernas, escorraçado por uma criança, e nem mesmo a frescura verde das alfaces dos seus talhões na horta o consegue vicejar. O Hipólito, vai assim vivendo os seus dias de reforma, envelhecendo, é certo como todos os outros, mas numa passada melancólica que nem uns copitos a mais conseguem afogar, sempre que na numerosa família, em dia dela, é bombo da festa.

O Hipólito Cabral, está mais velho e menos alegre, ou menos novo e mais triste, mas, que raio, ainda continua a ser uma figura típica de Garranchos e, com uma ponta de orgulho ele tem-se nessa conta e é por isso que de volta e meia, numa espécie de descargo, lá consegue arrancar forças à sua velha ruindade e esteja onde estiver, a jogar uma suecada, a discutir futebol ou política, é homem e mestre para armar uma valente confusão e no dia seguinte Garranchos inteira fica a saber que o Hipólito ainda continua vivo, para dar e para durar.

 


Américo Almeida
Contos Pequenos

A bola de riscas coloridas

 

A freguesia de Guisande estava em festa. O sino grande salpicava de notas repicadas e alegres o ar límpido de Junho, tal qual o padre a distribuir bênçãos quando aspergia a assembleia com a água nova benzida na missa pascal. Era festa. Era dia de Corpo de Deus, de Comunhão Solene para uma trintena e e tal de criançolas que o padre Francisco, com dedicação de pastor e disciplina de mestre, arrebanhara de Estôse ao Reguengo, e preparara em ensaios rígidos, marcados por doses de mocas, cristãmente distribuídas. Na véspera, a freguesia, organizada por lugares, juncara já de mastros, bandeiras e flores, o percurso da Igreja à capela do Viso, por onde, compassada pela Banda do Vale, haveria de passar a majestosa procissão, qual centopeia trajada de opas escarlates arrastando-se lenta e sagradamente pelas Quintães fora.  

  Para cada uma das crianças seria um dia inesquecível, uma marca estampada fundo nas suas tenras vidas, não tanto pelo significado religioso, que aprenderam de cór na doutrina e que daí a dias certamente esqueceriam, mas sobretudo pelo êxtase e turbilhão de emoções que o dia comportava, desde os preparativos logo pela manhã bem cedo, a roupita diferente da habitual, os pés descalços enfiados numas botinas, até ao comer melhorado e com alguma fartura, mas, também, pelo brinquedo que, quase por decreto, era como uma recompensa divina pelos deveres cumpridos, desde a lenga-lenga da doutrina aprendida à Ti´Francelina, até aos ensaios do protocolo da cerimónia e à iniciação no coral pautada pelas mocas do padre Francisco, sempre que a voz teimava em aldrabar um sustenido ou trocar um semibreve por uma colcheia “…Corpo de Cristo, Sangue Divino, dá a vida eterna ao peregrino…”

  O Albertino era uma dessas crianças, e, logo arrumadas as cerimónias, às últimas notas do “vamos partir, de junto deste altar…” a sua mão pequenita, ainda cheirosa da açucena que deixou apressado aos pés da Senhora da Conceição, recebeu da mãe uma luzidia moeda de 25 tostões que, na tenda de brinquedos depressa trocou por uma bola de borracha, pintada às riscas, verdes, azuis e amarelas. Era bonita, não muito grande, que o dinheiro não deu para tamanho mais generoso, mas, mesmo assim, um pouco maior que um diospiro.

Nos dias seguintes, a bola às riscas coloridas encheu o Albertino de alegria, numa inundação que chegou ao coração e mesmo à alma. Encheu também todo o seu tempo, afogando os deveres e afazeres marcados pela disciplina severa de sua mãe, pelo que, depressa, também se encheu de porrada, e a bola, como quem separa a cria indefesa da mãe impotente, foi-lhe arrancada e escondida. Bem escondida.   

Nos tempos seguintes, nos escassos momentos de vagar entre os trabalhos da escola e da casa, o Albertino parecia uma alma penada, divagando soturno pelos cantos da casa e da horta, à procura da sua bola às riscas coloridas. Procurou, procurou, abriu caixas e gavetas, deslocou o roupeiro e a cristaleira, revolveu pedras e cavou buracos, mas nada. Chegou a acreditar que a mãe a lançara ao fogo do forno grande numa das quartas-feiras de fornada. A inglória na procura e o passar do tempo fizeram o resto. Chegou a festa do Viso, veio o mês das almas, o Natal e Páscoa, os meses e os anos. Esqueceu a bola, embora, vagamente em sonhos, ainda pinchasse colorida à sua frente.
O Albertino cresceu, tornou-se rapaz, fez-se homem, fez a tropa, fez o seu ninho noutra árvore, casou e teve filhos. Pelo meio, foram-se-lhe os pais, e com a mãe o segredo do esconderijo.  

  A velha casa paterna, de cantaria escurecida pelo tempo, outrora povoada pelos pais, irmãos, avós e bisavós, resgatou-a aos casmurros dos irmãos por tornas em dinheiro, e agora, em tardes soalheiras, enquanto o sol entrava molengão pelos janelas do sobrado, o Albertino, a caminho dos sessenta, abria emocionado o velho portão do quinteiro e ficava sem saber se aquele ranger era das dobradiças enferrujadas ou se das portas da sua alma, que também se abriam escancaradas a um manancial de recordações, que os antepassados sisudos, cinzentos e formais, pendurados em quadros abandonados pelo vazio da sala grande, ajudavam a reviver. Numa dessas tardes, subiu à cozinha grande, e lá estava o forno, que ainda parecia quente, a lareira e o negro poial ainda a cheirar a fumo. Desceu aos aidos húmidos e escuros, viu a casa-da-eira, e entrou na casa-do-vinho. Lá estavam o lagar de xisto, a prensa e os pipos, alguns sem aros e aduelas, como monstros do passado, esventrados no corpo e na alma. 

Lá estava, ainda, a velha salgadeira de madeira de pinho, jazigo calcinado pelo salitre de muitas arrobas de presuntos e orelheiras ali enterradas a cada matança. Decidiu deslocá-la, para ver da sua estabilidade. Então, entre a parede e a salgadeira mexida, envolta num monte de reboco salitrado, lá estava a sua bola. Não queria acreditar. Tomou-a com as mãos trémulas, limpou-a do salitre que por cima lhe tinha comido a cor. Então, virou-a da parte pousada no chão, e de repente a bola lavou-se com as suas lágrimas e pôde voltar a ver um pouco das riscas verdes, azuis e amarelas. Derrotado pelo pranto e emoção, deixou-se sentar na borda da prensa e as suas mãos, agora de homem maduro, afagavam mansamente a sua bola de menino, e, lá para os lados de Trás-da-Igreja, pareceu-lhe ouvir o bater festivo e repicado do sino grande. Abriu a mão direita, sentiu um cheiro de açucenas e pareceu ver nela os 25 tostões de sua mãe.  

 


Américo Almeida
Contos Pequenos

Morreu o ti´Jacinto

 

- O ti´ Jacinto morreu ! - Ainda o sino grande vibrava com as derradeiras notas das carreiras a defunto, e já a notícia se espalhara célere pela aldeia.
Tenho do ti´ Jacinto a imagem imponente de um dos velhos patriarcas que povoam o livro do Génesis, na Bíblia, daqueles que viveram duzentos, trezentos e quatrocentos anos e por aí fora, até Matusalém, que consta ter tido a maior longevidade com as suas novecentas e sessenta e nove primaveras.
Claro que o ti´Jacinto não chegou a tantos anos, nem aos cento e vinte que dizem ter vivido Moisés, nem sequer aos noventa e seis do tí´Joaquim da Ana, seu compadre, mas ficou por lá perto.


Viúvo, de uma vintena de anos, da Francelina, eterna e fiel companheira das tristezas e das alegrias, da saúde e da doença, o velho ti´Jacinto, sempre sacudido por uma tosse seca e purulenta e dores em tudo quanto era osso, arrastava-se curvado nos seus últimos dias pelas ruas do lugar, agarrado a uma nodosa bengala de castanheiro bravo, a mesma que anos antes descarregava a eito nos lombos matulões da sua rapaziada.


O tí´ Jacinto era lavrador. Agarrado à soga dos bois, recordo-o nas suas peregrinações diárias para as Ribeiras, donde, enfiado nuns tamancos e calças remendadas, entre plantações de batatas, milho, centeio, feijão e latadas de vinho americano, arrancava o escasso sustento com que conseguiu manter e criar a sua prole, mesmo considerando que a criação acabava por altura da quarta-classe, ou até da segunda e terceira, desde que a etapa rondasse os 10 ou 11 anos e a comunhão solene garantida. Depois era trabalho. Felizmente p´ro ti´ Jacinto, os matulões dos filhos não eram ainda obrigados a frequentar a escola até ao 9º ano, nem se pensava na faculdade, nem nos, carros, roupas de marcas, computadores, telemóveis e casamentos chiques em quintas decoradas com carroças e cangas de bois. Isso ainda pertencia ao futuro e o Ti´Jacinto viveu no passado.


Criou doze filhos, todos homens, tantos quantos as tribos fundadoras de Israel, como costumava dizer orgulhoso, criados e mantidos a caldo de couves e feijão, pouco, sem muado, e a muita porrada no lombo. Não que o ti´ Jacinto  fosse demasiado severo, ou desprovido de apego paternal, mas porque essa era a lei da vida, a lei da pobreza, a lei do pão-nosso-de-cada-dia, mitigado à terra, resgatado à inconstância do tempo e das estações, do nascer ao pôr-do-sol, com suor, sangue e lágrimas.
Não admira, pois, que a tribo, tal como as de Israel, atingida a independência e discernida a vontade instintiva de pássaro que voa da gaiola repressiva, se dispersasse cedo por terras de França e Suiça e ali fizesse ninho e fundasse a sua prole. Para trás, para todos eles, principalmente depois de sepultada a referência maternal, que reviam num ou noutro ano em dia da Festa do Viso, ficavam a terra e as recordações amargas de trabalho, fome e bordoada de criar bicho. Ficou também o ti´ Jacinto, abandonado à sua bengala de castanheiro bravo, amparado nas horas piores pelas almas piedosas de algumas samaritanas vizinhas e alimentado a horas certas pela assistência social, já quando não conseguia cozinhar p´ra si, nos derradeiros anos.


O ti´ Jacinto morreu. Se calhar de doença, se calhar de velhice. Mas morreu. No dia do funeral teve o Padrão das Almas, vindo da freguesia do Vale e Missa de corpo presente, porque deixara indicações e dinheiro para isso. O padre habitual, em dia de folga, foi substituído pelo velho Padre Elias, arrancado da tasca da Irene, a meio de uma punheta de bacalhau.
Os filhos, os doze, foram avisados, mas não lhes deu jeito. Que viriam para a Missa de Sétimo Dia, recolher o ofertório e para definir as partilhas do que restava do campo da porta e da tapada do Souto de Baixo. Assim, em cima da hora, que era difícil; os bilhetes, os aviões, as viagens, as férias já marcadas…
Sempre desejou ser sepultado num dia de sol, ser aconchegado pela terra morna. Arrepiava-o a expectativa de descer à terra em dia de chuva, e ser soterrado a pazadas de lama fria e pesada.


O destino satisfez-lhe essa última vontade. Quanto aos filhos, demasiado amargurado nos últimos anos, nunca tivera ilusões e pressentia que ia ser sepultado sozinho, abandonado como um cão sem dono, sem a sombra envolvente das asas dos filhos, sequer sem um beijo choroso na testa, ao fechar do caixão. Não pode comprovar essa amargura que lhe tolhia a alma, é certo, mas não se enganara. Dos doze que manteve e criou, todos ainda vivos e bem de vida, nem um só apareceu.
O caixão desceu aos solavancos os sete palmos e alojou-se pesado no fundo da cova aberta pelo Almiro. Os presentes começaram a abandonar o cemitério entre conversas de circunstância e quando sobre a madeira do esquife, lançada parcimoniosamente por um sobrinho dorido, caiu a primeira pá de terra, ainda morna pelo sol de Agosto, uma leve aragem sacudiu um renque de choupos na encosta da Quintão, e o único choro, quase um frémito, parece ter vindo dali, da natureza, afinal a única que compreendeu e acompanhou o ti´ Jacinto, na vida e na morte.


O Ti´ Jacinto morreu. E se o padre habitual, num dia que não era de folga, no elogio fúnebre à Micas da Calçada, dias antes, perante os filhos doutores e engenheiros, assegurava que ela já estaria no Céu, com o seu sorriso de santa (quando na verdade era a peçonha mais reles do lugar), é mais do que certo que ele, o Ti´ Jacinto, esse sim, estará já à sombra do Criador, porque o seu purgatório, a sua redenção, foram já cumpridos aqui na Terra.


Requiescat in pace !

 


Américo almeida

(conto publicado no jornal “O Mês de Guisande”, em Junho de 2006)